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      A ventania de uma terça-feira perdida no meio de agosto era arrasadora, do tipo que entorta árvores, leva as roupas a secar no varal e carrega os amores passageiros e pouco sólidos para longe.
 
      Diante do clima pouco ameno e com cada pêlo da superfície de seu corpo a se arrepiar, ela balançava os pezinhos, sentada em um bloco de concreto na cobertura do seu prédio. Apesar do semblante pensativo, não havia nenhum suspiro de uma gostosa confusão lhe permeando a mente. Ao invés disso, restava o frio de um vazio imaginativo.
 
      Ao seu lado, porém, madeixas loiras se bagunçavam em todas as direções, batendo insistentemente na nuca de seu dono. O menino mantinha os braços cruzados, sua expressão corporal se firmava fechada, enquanto os músculos se enrijeciam sobre a pele. O ar parecia pesar toneladas e ele, apesar de sua notável força física, não era capaz de sustentá-lo.
 
      A pouca distância que os separava estava preenchida com tanta tensão que parecia doer a qualquer um que possivelmente os observasse, porém não a eles. Estava frio e o calor de uma latente raiva poderia soar até agradável. Mas isso seria mentira.
 
      Eles não eram do tipo que apreciavam os sentimentos negativos, mas reconheciam neles a inevitabilidade do conceito de humanidade. Crescendo juntos, aprenderam a cultivar sempre o melhor dentro de si, a cuspir o ódio no lixo com a mesma velocidade com o qual o seu sabor ameaçava lhes encher a boca. Até aquele fatídico momento, a serenidade estivera tatuada nos dois por anos a fio como uma linha invisível que ligara corações amigáveis.
 
      E, então, ela estava indo embora. Bolsa de estudos fora, bem longe, no país que uma tia por parte de pai morava. Quem liga?
 
      Ele liga muito. Ela também.
 
      Virar adulto e encarar uma vida em que sonhos fantasiosos ficam em segundo plano parecia um fardo pesado demais para os dois, mesmo que juntos, suportarem. Sentiam que deveriam estar felizes, afinal, faculdade conceituada,  grande passo para o sucesso dela... Nos conceitos sociais, ao menos. Para eles, sucesso era conseguir viajar o universo à nado, mergulhando de cabeça de pessoa em pessoa.
 
      A dita realização pessoal parecia distante agora, enquanto a vida se apresentava, cada vez mais, como uma realidade. Se viver era sentir o peito apertar junto à angustiante incapacidade de administrar a própria existência, eles respiravam a inconstância de se estar vivo. Tentando evitar, a menina corria do tempo, se utilizando de todos os esforços que seu corpo e sua mente eram capazes de realizar, mas não adiantava. Ao olhar para trás, só conseguia se enxergar distante de uma única pessoa, a que mais importava. 
 
      Era um confronto silencioso, quase interno – pois sentiam que eram apenas um – que se intensificava, sem que eles soubessem o porquê. Mal se olhavam e, quando o faziam, era sempre em momentos diferentes, da forma mais rápida e discreta que parecia ser possível, porque encontrar os olhos do outro significava perder. Perder a cabeça, perder a briga, perder a raiva e, junto a isso tudo, se perder profundamente na essência alheia uma vez mais. Isso era coisa demais para se dar adeus!

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