Escrever isso, assim, explicitamente, faz com que eu questione minha própria coerência. Eu, que já estava acostumada com a minha alergia a qualquer menção a um relacionamento, me encontro aqui, suspirando pelos cantos. Suspirando por você, no meio da aula de fotojornalismo.
É que eu acho que não faz sentido, sabe? Aprender sobre abertura do diafragma, velocidade do obturador, iluminação, o retrato preciso da imagem da realidade, se ninguém vai me ensinar a apreender aquele brilho indescritível no seu olhar, sempre que você escuta alguma coisa que te agrada muito. E quando sou eu a dizer uma dessas coisas e a produzir o seu melhor sorriso que eu já conheci, tem sensação melhor?
Então, ok, eu entendo de fotografia, mas não consigo capturar essas coisas. Adianta?
Por falar nisso, foi por causa da fotografia mesmo que a gente se conheceu. Foi por causa de uma luz mal colocada, capaz de embaçar minha visão, que eu esbarrei em ti. Foi por causa desse seu sorriso fora de hora e desse seu brilho inesperado, logo após eu ter soltado um "nossa, você tem uma apreensão visual tão linda", que eu me apaixonei por você. Pela sua forma de ver tudo. Pela sua forma de registrar tudo. Pelo modo como você cheira meu cabelo. Pelo modo como você ri, depois de cheirar o meu cabelo. Pelo sorriso... Esse sorriso que agora aparece, pelo menos, três vezes a cada dois parágrafos que eu escrevo.
O seu sorriso que eu chamo de meu.
Sorriso que eu não consigo enquadrar em foto, em desenho, em óleo sobre tela. Sorriso que eu enquadro no coração, observando a imagem de nós dois dançar na minha mente, enquanto o professor desanda a falar sobre Henri Cartier-Bresson.
E essa aula ainda. Tudo bem, entendi, eu vou parar , pelo menos, um pouquinho, de pensar em você tanto assim. Eu preciso — e digo isso sem qualquer trocadilho infame — ter mais foco na realidade que me rodeia.
No final, o próprio Bresson explica. Com a sua célebre frase "Fotografar é colocar na mesma linha de mira: a cabeça, o olho e o coração", ele fala comigo através do documentário exibido, levando meus pensamentos para longe da aula, mais uma vez. As imagens se embaçam. Meus olhos desfocam sobre a tela de vídeo, mas a cabeça e o coração... Estão na linha da sua mira e você, amor amador, tirou a minha melhor fotografia.

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