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          O salto alto bate no asfalto molhado provocando um ruído incômodo. A escuridão da madrugada mistura-se com o ar cinzento e possivelmente poluído da cidade grande. São exatamente três horas da manhã.
 
A morena caminha devagar. O vento gélido deixando-a com dificuldade de respirar. A dor também não ajuda. Suas pernas desnudas tremem de frio e pavor. O vestido curto e apertado sendo puxado para baixo em uma tentativa vã de deixá-lo em maior comprimento ou, talvez, de retirar aquele cheiro repugnante de suas roupas.
 
Ela está a exatos dois quarteirões de sua rua, mas o cansaço a impede de seguir em frente. Um canteiro de plantas é o único lugar onde ela pode descansar, no momento. Desajeitada, a jovem mulher senta no meio-fio, encostando-se nas folhas. O estômago delicado parece se revirar ainda sob efeito da bebida, enquanto sua cabeça explode por dentro. Toda vez, ela se vê desejando não ter que beber. Tudo é horrível, desde o gosto até o efeito, tempo depois. Abrir mão do álcool, porém, significa ter que lidar com tudo em completa lucidez... Então, é necessário beber!
 
E, mesmo assim, ainda não lhe parece o suficiente.
 
Sua cabeça atinge um nível realmente incômodo de dor, mas as memórias seguem ali – recortadas, mas vivas. As imagens daquele homem pululam sua mente. O modo como ele tocou, acariciou e beijou seu corpo. É tão repugnante, mesmo que nunca signifique nada para ninguém. Só uma noite. Casual e profissionalmente, é como funciona.
 
“Eu realmente não deveria me deixar abalar!”, ela diz para si mesma.
 
Mas não adianta. Um segundo a mais e as lágrimas começam a cair, descontroladas.
 
A realidade estampada bem diante de si dói além da alma. Ela sabe que jamais alguém irá entender. Ninguém jamais se importará em conhecer a menina sonhadora e esperançosa, esmagada por roupas curtas e maquiagem frequentemente borrada. Para os olhares alheios, ela sempre será apenas mais uma mulher parada em uma esquina sem nome.
 
Não importa mais. O dinheiro está guardado em sua bolsa minúscula, então, como todas as outras noites, ela se convence de que não há mais volta, mas... E se...?
 
Um carro vira a esquina, aproximando-se. Ela limpa bruscamente as lágrimas, antes que quem quer que seja esteja próximo o suficiente para identifica-la. Ninguém precisa saber.
 
O veículo abre a porta diante da sua figura solitária na calçada e, com um suspiro interno, ela relembra a diferente realidade que desejou quando ainda era pequena e ingênua. A ideia de correr pelas ruas para longe de tudo o que já fez antes lhe perpassa a mente, uma vez mais... Mas ela entra no carro, mesmo assim, pronta para encarar a si mesma no vazio de estranhos. Abafando um último soluço, tenta se convencer de que é isso que ela é agora.

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