Teve uma época na qual, de 10 páginas do meu caderno de textos, 9 eram sobre você. Cada vírgula mal colocada remetia a sua fala pausada e ao seu sotaque engraçadinho. Cada vez que eu sentava com uma caneta nas mãos, pronta para desabafar comigo mesma, era uma vez mais que eu me permitia rebobinar suas risadas fora de hora na minha cabeça... Em meio aos meus pensamentos embaralhados, você sempre ria na hora certa!
Nós éramos do tipo que tínhamos tudo a ver. O humor sarcástico, a preferência por punk rock, a mania interminável de falar sobre músicas e filmes por horas sem se dar conta e uma certa prepotência em achar que sabíamos tudo sobre regência verbal. Agora, tudo isso parece simplesmente coisas as quais qualquer outra pessoa poderia ter "tudo a ver" também, mas, ainda naquela época, éramos você e eu. Todo o resto e talvez as inúmeras outras possibilidades que qualquer outra pessoa poderia representar não importavam.
A noite nunca tinha lua, os gatos espalhados pela calçada da sua rua viravam tigres e nós inventávamos acordes diferentes para todas essas situações malucas que aconteciam a nosso redor. Você tocava guitarra na madrugada e tornava toda música romântica que derretia meu coração em um sucesso digno de nossa banda de rock favorita. Eu tocava um pandeiro meia-lua e, enquanto me sentia uma estrela da música latina, você me dizia que ritmo da minha batida preferida era o ritmo exato do seu coração.
Entre essas melodias inventadas e recriadas, desenhadas em uma escuridão inocente demais para ser verdadeira, nosso ritmo descompassou. O tom se alterou, a harmonia falhou e seu timbre já não parecia em nada com o que eu me lembrava. Foi quando ela chegou.
Ela não gostava de música – não tanto quanto nós –, mas tinha um talento nato para poesia contemporânea. Escrevia as palavras nas paredes do nosso estúdio de aula experimental, como se elas simplesmente tivessem que estar ali. Não era uma intervenção, era simplesmente o que poeticamente tinha de ser feito. Eu só não entendia, porque, enquanto ela despejava palavras desencontradas que rimavam internamente, seu olhar se fixava em você. Sempre.
Ela já estava ali, muito antes de mim; talvez muito antes de você inventar todas aquelas histórias e elogios muito bem colocados sobre o modo como minhas bochechas pareciam ter sido coloridas com flores quando eu ficava sem graça. Ela sempre esteve ali. Ela é bem desse tipo: que fica, que segura a mão de quem quer que seja e permanece. Ela se estabelece, permitindo apenas que a sua poesia voe.
Ela sempre esteve ali e, depois de descobrir sobre ela, eu passei a me perguntar se você respeitava tê-la por perto. Se você era estúpido de fingir que ela não existia quando estava comigo e brincava com as minhas melódicas notas inexplicáveis de amor; ou se você sempre esteve ciente e confortável com ela estar ali e eu que fui boba o suficiente para interpretar nossas melodias ensaiadas como doce romance; ou ainda, na pior das hipóteses, se você era estúpido o bastante de ignorar a subjetiva presença de nós duas.
Mais uma coisa para incrementar a lista de certezas que nunca terei nessa vida...
Não me permiti pagar para ver ou esperar para descobrir. Eu não precisava disso, não fazia questão.
Não me permiti pagar para ver ou esperar para descobrir. Eu não precisava disso, não fazia questão.
A noite tinha lua, às vezes. Os tigres metafóricos espalhados pela calçada pareciam ronronar ao som dos meus passos e eu fui. Fui embora para perto de mim, misturando todas as músicas que eu não havia tentado antes.
Eu sabia que ela era do tipo que ficava e respeitei isso, no exato segundo que soube sobre sua existência. Admirei a poesia dela e, mais do que isso, admirei a absoluta coragem que ela tinha de permanecer contigo, mesmo sem saber. Bastava, então, que eu respeitasse a mim mesma. Eu sou bem desse tipo: que vai, que, sem esperar a colheita do que quer que tenha sido plantado, corre para longe.
Você tinha alguma coisa que te ligava inteiramente a ela e eu... Eu iria ficar perfeitamente bem, com meus acordes tortos e meu timbre trêmulo. Eu estava perdida quando te conheci, mas isso não quer dizer que eu iria te esperar. Você tinha ela; eu tinha a mim mesma... E, mesmo sem saber tudo sobre regência verbal, a décima página do meu caderno – a única que não era sobre você – parecia mais certa do que todas as outras.

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