Um belo dia, pus-me a voar sem medo, sem receio; a acreditar que livre era eu. Por assim ser, o mundo me pertencia ao mesmo tempo em que nenhum apego a nada eu tinha. A liberdade tinha gosto de sol da manhã, daquele calor que aquece a alma e incha, sem notar, o coração.
E sem perceber qualquer diferença na beleza das minhas asas, esbarrei nas gaiolas malévolas de um caçador. Sob a mira de seus olhos claustrofóbicos e atentos, minhas asas pesavam algumas toneladas. Carregá-las passara a se tornar uma dor inenarrável. Carregar-me era como a triste inutilidade de uma melodia fúnebre quando até a morte lhe abandona.
A extrema mudança nas definições dos momentos da vida representa bem o amargo que provara ao me encontrar ali, sob olhares que me devoravam por dentro e por fora e, enquanto pensava na minha almejada e conquistada liberdade, chegara a duvidar de mim mesma. Quem poderia dizer que não havia vivido sempre em uma gaiola?
O cenário me apavorava. Dava para ver o campo se expandir sobre mim, dava para imaginar o vento gélido no rosto, dava para deslumbrar o que seria esse ideal de liberdade. Ainda assim, não podia voar. Pelos vidros de uma pequena prisão que dava para a vida, havia um peso dentro, fora, em todo lugar. Olhando para a vida atônita. Havia... A via.
O ponto máximo da realidade é que, uma vez que se encontre preso em uma gaiola – por mais ampla que ela possa parecer –, poucos serão aqueles a acreditar que você realmente possui as chances de sair de lá. Eles também possuem seus próprios pesos, asas podadas, canto assassinado. O apoio ainda soa doce, mas intangível. Não vem da alma, vem de uma gentileza falsamente projetada.
Não tive tempo de pensar nisso enquanto estava naquela gaiola. Não tenho tempo de pensar nisso agora. Dentro ou fora? A vida ainda está lá, a via ainda está lá, enquanto sigo aqui. Onde diabos é aqui?
Sem estar preso, sem estar livre. O peso nas asas não incomoda mais, elas estão fechadas. Mas o peso de mantê-las fechadas machuca. A amargura da incerteza se aproxima da dureza do chumbo e ainda assim ainda há via.
E por todas as vias ainda minhas asas serão abertas.
Cedo ou tarde, faço-me dona da minha liberdade.
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