Fazia frio, como sempre.
O portão que demarcava os limites da propriedade abria e
fechava com o vento indeciso da noite solitária. As luzes do casebre estavam
completamente apagadas, mas ela não tinha medo do escuro. Não mais. Sentada no
pequeno degrau na varanda, a garota observava, em silêncio, o movimento na casa
ao lado. O pequeno lampião aceso sobre a cerca iluminava a dança de dois
apaixonados. O garoto dos seus sonhos agora bailava e ria com uma desconhecida,
a qual já namorava havia um tempo desinteressante. Ainda assim, dava para
ouvir, ao longe, o som da felicidade e de alguns "eu te amo",
quebrando o silêncio confortante da madrugada no campo.
Apesar de tudo isso, ela continuava ali. Observando. Quieta.
Ao longe. Sempre ao longe. Distante. Invisível. Sempre.
De repente, o último foco de luz por aquele fim de mundo se
apagou. Eles haviam entrado, ainda animados e felizes, prontos para fazer
sabe-se lá o que ao longo do resto da noite. Já fazia bastante tempo que frio
não era problema para o seu vizinho.
Demorou um minuto – talvez dois – para a garota perceber
lágrimas descendo pelo seu rosto. O costume era tanto que tornava-se difícil
notar quando acontecia. Contudo, não houve pressa em secá-las. A pobre menina
apenas deixou que percorressem o seu caminho até que cansassem e
pingassem no chão.
Há um tempo, haveria ali alguém para aplacar sua tristeza,
para fazer-lhe companhia em meio ao breu, para espantar os perigos da
escuridão, para provocar risadas por motivos diversos e dar-lhe um beijo de boa
noite. Há algum tempo...
O barulho de passos dentro da casa ecoou. Alguém estava
acordado e ela sabia bem que não deveria estar ali ainda a essa hora. Enxugou
seu pranto rapidamente e, contornando a casa, pulou com facilidade pela janela
do seu quarto. Já adequadamente vestida, deitou-se na cama, contendo as
lágrimas que ainda restavam, enquanto continuava a observar a noite lá fora.
Fazia frio, como sempre.
O portão estava finalmente fechado.
Ele sempre esteve.

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