Pedi uma caneta ao garçom, que me olhou com reprovação, mas cedeu. Com o pequeno objeto metálico em minhas mãos, peguei um guardanapo e escrevi, em letra cursiva, a seguinte mensagem: "Você tem cinco minutos para me encontrar lá fora. Não esqueça as chaves do carro!".
A música que tocava na boate era um pop ensurdecedor. As luzes coloridas da pista de dança piscavam insistentemente. Se eu estivesse bebendo, provavelmente, já conseguiria sentir o efeito de todo aquele estímulo visual, mas, no copo bem diante de mim, só havia água. Além disso, eu estava concentrada demais no guardanapo que acabara de dobrar para poder sentir qualquer outro efeito alheio ao que o meu coração me causava no momento.
Eu queria estar completamente consciente de cada passo meu naquela noite. Queria fazer o que quer que fosse com absoluta certeza de estar sã. Bom, o meu conceito de "sã" não era muito convencional, porém vinha me servindo bem nos últimos vinte e três anos da minha vida... E, desde que a gente se encontrou, eu poderia até mesmo arriscar dizer que ele estava melhor do que nunca.
Desviei o olhar do pequeno pedaço de papel em cima do galpão e olhei discretamente para você. Cercado pelos amigos, próximo a um dos pufes de couro — disputadíssimos depois das 3 horas da manhã. Seu cabelo na altura do ombro estava amarrado no meio-preso mais mal feito e desgrenhado que eu já vira, mas, como era de se esperar, você ainda parecia aqueles bad boys perfeitos dos filmes de sessão da tarde... Pronto para partir o coração da jovem donzela.
Só que eu não sou bem uma jovem donzela. Pelo menos, ninguém acha que eu seja. Você, menos ainda. Nós tínhamos tudo para formar o casal de péssimas influências da nossa pequena cidade. Na verdade, se qualquer um chegasse a suspeitar que estávamos verdadeiramente juntos, era possível que fôssemos presos. A simples força das nossas reputações unidas já era uma intervenção à paz e à ordem local.
Eu, a desequilibrada, revoltada, metade gótica, outra metade destruidora de lares viciada em luxúria, completamente alheia aos conceitos de moral e bons costumes. "Ela não devia sair por aí, agarrando todo e qualquer ser humano existente na face da Terra. Ela tinha que saber o que é respeito. Mas também... Soube que ela esteve com fulano por causa do dinheiro dele".
Você, o rebelde riquinho, encrenqueiro, visivelmente frustrado com a própria existência. Sempre andando para cima e para baixo com algum instrumento que perturbasse a paz de, no mínimo, quatro bairros adjacentes. "Ele vive com essa cara abatida, essa mochila para cima e para baixo... Aposto que usa drogas! Quando foi que ele veio para cá mesmo?"
Levantei do lugar em que estava sentada e respirei fundo. Deixei a caneta no balcão novamente e caminhei até você. Seus olhos focalizaram os meus ainda nos primeiros passos de minha movimentação. Eu sorri, de forma nem um pouco discreta, e você desviou o olhar, sorrindo também. Nós éramos tão óbvios que, às vezes, eu ainda me perguntava como era possível que fosse segredo para alguém. Éramos uma amostra ambulante de nossos medos e de nossos sentimentos mais melosos também.
Você, o aspirante a músico, compositor de mão cheia, mas frequentemente atormentado pela insegurança e pelas paranoias fora de hora. Você, sempre perdido no mundo dos seus sonhos, sem saber lidar com muita propriedade com a realidade. Ela dói e te faz deixar sempre a mala de mão pronta para quando você precisar simplesmente fugir.
Eu, a nerd totalmente bitolada em livros de romance e em rebolar com os ritmos mais inusitados possíveis. Sempre perdida no brilho das estrelas e surtando com a imensidão do universo. Eu vivo no mundo da lua, um pequeno mundo onde tudo faz sentido. Um lugar onde as mocinhas matam dragões, usam batom vermelho, vestem o maior decote que podem encontrar nas lojas e não abaixam a cabeça para o estúpido discurso conservador de uma vizinhança mundana.
Nós dois...
— UOU! — sua voz engrossou, no exato momento em que eu trombei "sem querer" em você, a caminho da saída. — Está com tanta pressa por quê? Roubou alguma coisa?
— Ah, droga! Eu machuquei você? — Forcei um tom falsamente culpado. — Desculpe! Na próxima vez, eu uso mais força...
Você revirou os olhos para mim, em resposta a minha provocação. Dava para sentir o peso dos olhares ao nosso redor. Todos eles esperando o fogo se alastrar depois da primeira evidência de atrito. Bem, nós éramos os descontrolados, não é? Esse era o nosso papel: protagonizar uma cena que daria assunto para todos comentarem por, pelo menos, uma semana.
Mas eu já havia colocado meu bilhete no bolso dianteiro da sua camisa de botão amarrotada. Você sabia, era o suficiente. Sem prolongar a falsa tensão, segui o meu caminho até a porta dos fundos. O nariz devidamente empinado e a jogada de cabelo mais ensaiada do que a das modelos da Victoria's Secret. O sorriso, por sua vez, só veio depois que eu já havia deixado o barulho da boate para trás.
Definitivamente, nós dois.
Nós tínhamos uma química que funcionava, por baixo de reputações desastrosas a respeito do que éramos e do que queríamos. Mas nós sabíamos exatamente tudo o que era possível saber sobre o outro e, ainda assim, não sabíamos nada sobre nós mesmos. Essa confusão identitária, de algum forma inexplicável, nos bastava.
Éramos complemento de uma realidade que ninguém conhecia, nem fazia questão de conhecer. Os boatos vinham em último lugar, porque, em meio a tudo que era dito e supostamente "visto", nós éramos nossas próprias prioridades. Eu estava associada aos seus sonhos e você, aos meus... E acreditávamos nas nossas frustrações. Acreditávamos, como poucos, na improbabilidade da vida.
Tínhamos nossas reputações como subtítulos dos nossos nomes. Eu era seu mapa sem qualquer rota, todo rabiscado. Você, meu anti-herói lunar, compositor da trilha sonora das minhas doloridas batalhas internas.
— Então, para onde vamos hoje? — Você sussurrou em meu ouvido, surgindo ao meu lado, de repente.
Deixei que meu olhar se perdesse em você por cinco minutos ininterruptos. Seus olhos continuavam firmes e quentes nos meus, mas não era eles que eu fitava. Era além. Além da sua materialidade. Além de onde estávamos. Além de onde poderíamos ir. Qualquer lugar poderia ser o nosso lugar, o mundo se abria diante de nós...
Não importava para onde ir.
— Eu não sei — quebrei o silêncio. — Eu estava pensando em coisas pequenas, tipo Bahamas, México, Saturno, talvez a cidade submersa de Alexandria... Você sabe: o básico.
— O básico? — Um sorriso interrompeu sua fala. — Não costuma ser a minha primeira opção, mas... Pode funcionar.
Funcionou. Desde o momento que você saiu da boate até às 9 da manhã quando chegamos em Alexandria, sentados no balanço do jardim de uma cidade vizinha qualquer. Você escreveu uma música, eu cantei-a um pouquinho acima do tom. Nós fugimos do jardim algumas horas depois. Nós fugimos do que éramos.
Com frequência, fugíamos da tristeza certeira da realidade.
Você, o aspirante a músico, compositor de mão cheia, mas frequentemente atormentado pela insegurança e pelas paranoias fora de hora. Você, sempre perdido no mundo dos seus sonhos, sem saber lidar com muita propriedade com a realidade. Ela dói e te faz deixar sempre a mala de mão pronta para quando você precisar simplesmente fugir.
Eu, a nerd totalmente bitolada em livros de romance e em rebolar com os ritmos mais inusitados possíveis. Sempre perdida no brilho das estrelas e surtando com a imensidão do universo. Eu vivo no mundo da lua, um pequeno mundo onde tudo faz sentido. Um lugar onde as mocinhas matam dragões, usam batom vermelho, vestem o maior decote que podem encontrar nas lojas e não abaixam a cabeça para o estúpido discurso conservador de uma vizinhança mundana.
Nós dois...
— UOU! — sua voz engrossou, no exato momento em que eu trombei "sem querer" em você, a caminho da saída. — Está com tanta pressa por quê? Roubou alguma coisa?
— Ah, droga! Eu machuquei você? — Forcei um tom falsamente culpado. — Desculpe! Na próxima vez, eu uso mais força...
Você revirou os olhos para mim, em resposta a minha provocação. Dava para sentir o peso dos olhares ao nosso redor. Todos eles esperando o fogo se alastrar depois da primeira evidência de atrito. Bem, nós éramos os descontrolados, não é? Esse era o nosso papel: protagonizar uma cena que daria assunto para todos comentarem por, pelo menos, uma semana.
Mas eu já havia colocado meu bilhete no bolso dianteiro da sua camisa de botão amarrotada. Você sabia, era o suficiente. Sem prolongar a falsa tensão, segui o meu caminho até a porta dos fundos. O nariz devidamente empinado e a jogada de cabelo mais ensaiada do que a das modelos da Victoria's Secret. O sorriso, por sua vez, só veio depois que eu já havia deixado o barulho da boate para trás.
Definitivamente, nós dois.
Nós tínhamos uma química que funcionava, por baixo de reputações desastrosas a respeito do que éramos e do que queríamos. Mas nós sabíamos exatamente tudo o que era possível saber sobre o outro e, ainda assim, não sabíamos nada sobre nós mesmos. Essa confusão identitária, de algum forma inexplicável, nos bastava.
Éramos complemento de uma realidade que ninguém conhecia, nem fazia questão de conhecer. Os boatos vinham em último lugar, porque, em meio a tudo que era dito e supostamente "visto", nós éramos nossas próprias prioridades. Eu estava associada aos seus sonhos e você, aos meus... E acreditávamos nas nossas frustrações. Acreditávamos, como poucos, na improbabilidade da vida.
Tínhamos nossas reputações como subtítulos dos nossos nomes. Eu era seu mapa sem qualquer rota, todo rabiscado. Você, meu anti-herói lunar, compositor da trilha sonora das minhas doloridas batalhas internas.
— Então, para onde vamos hoje? — Você sussurrou em meu ouvido, surgindo ao meu lado, de repente.
Deixei que meu olhar se perdesse em você por cinco minutos ininterruptos. Seus olhos continuavam firmes e quentes nos meus, mas não era eles que eu fitava. Era além. Além da sua materialidade. Além de onde estávamos. Além de onde poderíamos ir. Qualquer lugar poderia ser o nosso lugar, o mundo se abria diante de nós...
Não importava para onde ir.
— Eu não sei — quebrei o silêncio. — Eu estava pensando em coisas pequenas, tipo Bahamas, México, Saturno, talvez a cidade submersa de Alexandria... Você sabe: o básico.
— O básico? — Um sorriso interrompeu sua fala. — Não costuma ser a minha primeira opção, mas... Pode funcionar.
Funcionou. Desde o momento que você saiu da boate até às 9 da manhã quando chegamos em Alexandria, sentados no balanço do jardim de uma cidade vizinha qualquer. Você escreveu uma música, eu cantei-a um pouquinho acima do tom. Nós fugimos do jardim algumas horas depois. Nós fugimos do que éramos.
Com frequência, fugíamos da tristeza certeira da realidade.
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