Às vezes, viver parece uma daquelas noites sem sonhos. Ou, ao menos, uma daquelas noites cujos sonhos que enchem nosso imaginário adormecido não são passíveis de serem lembrados.
Sei lá, eu não sei como funcionam os sonhos. Gostaria de saber. Como funciona o imaginário humano? Como funciona estar inconsciente e ainda assim formar fantasias em nossas cabeças? Eu não sei nada disso.
Viver parece uma daquelas noites sem sonhos. Eu nada sei de sonhos. Nada sei de noites. Nada sei da vida. Imersa na loucura desenfreada do que é ser humano, eu espero e, muito provavelmente, vivo.
“Penso, logo existo” foi o que um notório filósofo chamado Descartes concluiu após muito pensar.
Contemplando minha mínima existência humana, eu também penso, Descartes, e descarto boa parte desses pensamentos – sem conseguir descartar, porém, essa tal existência que preenche meus olhos de vida todas as manhãs.
Todas as noites.
Então, eu durmo e sonho. Às vezes, sim. Às vezes, não. Viver parece uma daquelas noites e, ao colocar a cabeça no travesseiro, eu nunca sei. Não sei se embarcarei em um longo sonho bom; se encararei aquilo que me pululou a cabeça durante o dia; se terei um esdrúxulo pesadelo... Ou se terei uma noite sem sonhos. Ou se terei vida na manhã seguinte.
Nada sei, logo vivo, meu caro Descartes. Vivo essa
vida imersa na mais profunda ignorância. Pois é, viver, periodicamente, parece
uma daquelas noites sem sonhos – e mesmo sem sonhos, mesmo sem nada saber sobre
sonhos, ainda é necessário descansar.

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